Primeira consulta com a sage-femme

Na semana passada tive a minha primeira “consulta de verdade” com a sage-femme, uma consulta em que o tema foi A DOR.

As consultas duram em torno de 1 hora e são sobre temas pré-definidos (eu posso optar por ter a consulta sobre esse tema ou simplesmente dizer que não quero, que o assunto não me interessa), para que eu possa me preparar antecipadamente e levar minhas dúvidas neste dia.

* Um detalhezinho: assim como a consulta médica, a consulta com a sage-femme é reembolsada pelo sistema de saúde francês. Bom né? E sendo assim, qual o motivo de não querer ir na consulta e me informar ao máximo sobre assuntos ligados ao nascimento do Pedro?

Importante lembrar que aqui na França não tenho a opção de escolher o parto, de optar pelo tipo natural ou cesárea, sendo este último realizado somente se necessário, se eu não tiver condições de ter um parto natural. E mesmo que seja o caso, da necessidade de uma cesárea, essa só poderá ser verificada na hora do parto (em princípio, pois até o momento tudo anda bem e o Pedro já está posicionado para o parto natural), ou seja, entrarei em trabalho de parto! Sendo assim, os temas são voltados para uma circunstância normal.

 

Inicialmente questionada sobre o meu conhecimento sobre a dor do trabalho de parto e do parto natural em si, e sobre um possível medo, respondi que sim, tenho medo! Apesar de saber que a dor do parto varia de mulher para mulher, e de até conhecer mulheres que relatam que não sentiram praticamente nada no parto normal, sei também que de regra a dor é gigantesca, e confesso: isso me assusta!

O Cristiano, que também foi questionado, relatou que acredita que sou mais forte do que eu acredito que sou, no quesito dor! Que acha que eu subestimo a minha capacidade e a minha força… Muito bom escutar isso, afinal há mais de 13 anos juntos, pode ser que ele me conheça melhor que eu mesma. Pode ser que sim, que ele tenha razão, mas é natural termos medo de algo que não conhecemos, não?

Como era de se esperar, a sage-femme já tinha a informação do número absurdo de cesáreas que é realizado no Brasil e conversamos a respeito. Eu e o Cris acreditamos que além dos argumentos sobre a cesárea comumente falados, como exemplos, o ganho financeiro para um médico e o tempo gasto com o parto normal, há uma questão cultural muito forte. Não podemos dizer que a responsabilidade sobre essa decisão e esses números elevados é somente dos médicos, dos planos de saúde, ou dos hospitais, há muitas mulheres que sequer pensam em fazer um parto normal, ou mesmo sequer querem tentar um parto natural, por medo da dor ou, infelizmente, pela facilidade e conveniência de ter uma hora marcada para ter o seu bebê.

Bem, o fato é que essa cultura brasileira também faz parte dessa brasileira aqui! Cresci rodeada de mulheres que passaram por cesarianas, pelos mais diferentes motivos, e por suas histórias, e posso contar nos dedos das mãos as mulheres que conheço que tiveram parto normal. Cresci vendo filmes e novelas em que ao dar a luz, mulheres se contorciam de dor, mordiam panos (ou as mãos do marido, tadinhos) e tudo era muito difícil, para só então ao final tudo ficar bem.

Essa conversa inicial também foi importante para que a sage-femme pudesse analisar o meu nível de medo da dor e insegurança quanto ao parto natural.

Fomos questionados sobre “o que esperamos desses encontros”, sendo que fui enfática: quero estar confiante, quero acalmar meus medos e minhas inseguranças! Eis que o trabalho já começou a ser feito! 😉

O Cris, disse que como é o primeiro filho, não sabe muito bem o que esperar, mas deixou claro, pela sua disposição e interesse na consulta, que busca poder me ajudar de todas as formas possíveis!

Então a sage-femme passou a falar sobre a dor, relatando que a dor do parto normal é a única dor natural! O que isso quer dizer? É a única dor em que não temos nada nos fazendo mal, não estamos doente, não estamos machucados, etc.

Mas nós sabemos lidar com a dor? Pelo fato de sempre haver um motivo para sentirmos dor (doença, machucado), buscamos normalmente amenizá-la, ou preferencialmente parar esse sofrimento com um remédio ou uma outra forma, não é verdade?

No caso da preparação para o parto natural o que vamos fazer é conhecer como tudo acontece com o nosso corpo, para então poder decidir se vamos ou não optar (sim é uma escolha da gestante) por uma peridural para amenizar ou cessar a dor, em que momento faremos isso, o que essa decisão acarreta, etc.

Assim, a sage-femme passou a explicar como tudo ocorre no corpo da mulher, os hormônios secretados pelo bebê e pela gestante, para que servem e como podemos tirar proveito deles. É impressionante como o corpo humano, no caso o feminino, é sábio e produz tudo o que é necessário para que o parto ocorra da melhor forma possível. Sabia que o corpo de uma parturiente produzia a ocitocina – hormônio do bem-estar – , com o objetivo de estimular as contrações, iniciar o trabalho de parto (esse hormônio, neste momento, é produzido inicialmente pelo bebê) e evitar hemorragias; também tinha o conhecimento da existência da prolactina com o objetivo de produção do leite e também de ativação do instinto materno (essa última parte eu não sabia, lindo né?!), mas confesso que não sabia do efeito analgésico que a endorfina possui, objetivando deixar a mulher “grogue” para poder suportar tudo o que virá pela frente.

Você já viu alguma filmagem de parto natural? Para mim era um tanto estranho ver as mulheres que pareciam estar “fora de si” darem a luz, como podiam? Aqui está a explicação… é a beta-endorfina!

A sage-femme explicou-nos o quando é complicado fazer o parto de pessoas bem informadas, ou melhor instruídas, pois elas desejam estar no controle de tudo, saber de tudo o que está ocorrendo, e isso gera ansiedade, preocupação e estresse para a própria gestante, o que dificulta o parto. Assim, ficou claro que o ideal é desligar do mundo e estar o máximo possível relaxada, sem preocupações… conhecer o que virá pela frente apenas para aceitar o trabalho de parto, as contrações e a dor, passando por cada contração com tranquilidade. Respirar, respirar, respirar!

É possível? Diferentemente do que a maioria das pessoas imagina, o trabalho de parto não é todo ele dolorido. Apesar de poder durar horas e horas (e isso também varia conforme a natureza de cada mulher, mas em média umas 10 horas – 1h para cada centímetro de dilatação), as contrações ocorrem, quando no trabalho de parto chamado ativo, a cada 5 minutos, e com duração de 60 a 90 segundos.

Bem, pensando nestes números, temos que a cada 1 minuto de dores, terei 4 de total ausência de dor! Pensando assim, fica mais fácil aceitar o momento e respirar, buscando a calma e a tranquilidade para mais 1 minutinho, e mais um… um após o outro.

Ok, minha tarefa é: saber que de regra a dor é sim muito forte, mas que ela vai ser suportável e de uma forma possível de aguentar, afinal, caso contrário, como teriam ocorrido os nascimentos antes de surgir a cesárea? Preciso estar segura, confiante e muito calma!

 

Explicado tudo isso, a sage-femme passou a conversar mais diretamente com o Cris, qual o papel do pai neste dia tão especial? Explicou que devido a este “estado” em que eu provavelmente estarei, não devo me preocupar com nada, simplesmente deixar a cabeça vazia, sem estresse, ansiedades ou medos. Assim, caberá a ele a preocupação com todo o restante… papéis necessários para a maternidade, saber responder ao pessoal do hospital onde estão as coisinhas do bebê ou da mamãe, verificar antes de partir ao hospital que está tudo certo, saber como nos deslocaremos ao hospital, etc, etc, etc. Isso tudo, além de dar o apoio necessário a mamãe, que é essencial! 

Saber pelo que estarei passando ajudará o Cris a saber como agir e o que fazer para tentar aliviar um pouco as dores (e sobre isso teremos encontros específicos – massagens, pontos do shiatsu, respiração, apoio moral), e me conhecendo como ele me conhece, poderá até mesmo me ajudar em decisões importantes como o pedido da peridural.

Papel importante o do papai, não?

 

Nossos questionamentos foram, em princípio, muito básicos, pois é o nosso primeiro filho: Qual a melhor hora de ir para o hospital? Qual a hora limite? A partir de que momento a peridural pode ser solicitada? Posso requerer “peridural fraca” (para que a dor seja diminuída, mas que eu possa continuar a sentir o trabalho de parto)?

O que eu não sabia era que uma vez solicitada e realizada a peridural, não há mais nada que possamos fazer em relação a dor e ao trabalho de parto, resta-nos esperar o nascimento. Neste momento, a mãe (e também o pai) normalmente relaxa e consegue dormir um pouco, e o corpo da mulher continua a trabalhar (mais lentamente é bem verdade), com a dilatação ocorrendo pouco a pouco.

Como a anestesia o trabalho de parto retarda, e é por isso que muitas vezes se faz necessária a ocitocina sintética, para acelerar as contrações o a hora do nascimento.

 

Bem, este foi o nosso primeiro encontro, resumidamente! Saí satisfeita e confiante, pronta para pesquisar ainda mais a respeito do trabalho de parto e o parto natural e para realmente deixar meus temores de lado, confiando cada dia mais na minha capacidade de lidar com a dor e, se Deus assim permitir, ter um parto natural incrível!

 

Nesta fase em que estou (há 9 semanas do meu parto) tem sido super importante saber de mulheres que passaram pelo parto natural, escutar seus relatos, afinal, como disse a sage-femme preciso de boas referências para que minha cabeça passe a trabalhar a meu favor!

Assim, queria deixar um super obrigada, muito carinhoso a duas pessoas: minha prima Cibele Cesca e minha amiga Gabriela Hausen, que mesmo sem saber a enorme ajuda que estavam me dando, se dispuseram a conversar/escrever sobre as suas experiências, me deixando um pouco mais confiante!

 

Para terminar, quero deixar aqui um vídeo que mostra o nascimento de um bebê… impossível não se emocionar, pela força da gestante, mas acima de tudo pelo companheirismo e dedicação do marido! Vale a pena assistir!! (fonte youtube)

 

 

 

 

 

 

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