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Conhecendo um pouco sobre o trabalho das doulas e das sage-femmes!

Hoje tive a minha primeira “consulta de verdade” com a sage-femme, ou seja, a primeira consulta em que um assunto específico foi abordado.

 

Mas antes de falar sobre o assunto propriamente dito, cabe esclarecer quem é a sage-femme e qual o seu papel no gestação e no parto.

 

Muitas pessoas me perguntam se seria a doula ou a parteira existente no Brasil. Em parte sim, mas há algumas diferenças…

 

DOULA:

Doula,  significa “acompanhante” ou “mulher que serve”, ou seja, é aquela que acompanha o parto. É também conhecida como Monitora, Assistente ou Acompanhante de Parto. É uma função que vem sendo resgatada aos poucos no Brasil.

Ocorre que antigamente as mulheres davam a luz acompanhadas de outras mulheres mais experientes que já tinham passado por parto(s) e poderiam ajudar a gestante neste momento tão delicado. Com o passar dos tempos, no entanto, o parto tornou-se um assunto médico, onde diferentes profissionais passaram a atuar, cada um com sua função bem definida (obstetra, pediatra, anestesista, enfermeira).

Porém, uma função restou vaga, a da pessoa responsável pelo bem-estar físico e emocional da gestante. Essa lacuna vem sendo preenchida pelas doulas, que surgem para dar um suporte emocional e afetivo à gestante, em um ambiente em que a maioria das pessoas que a rodeiam são desconhecidas, e em um momento em que na grande maioria das vezes a mulher está tomada pela dor, pelo medo do desconhecido e pela ansiedade. Assim, podemos dizer que o grande papel da doula é deixar a mãe segura e tranquila, para que o parto ocorra da melhor maneira possível.

O trabalho de uma doula por ocorrer dentro de um hospital, e neste caso essa profissional não conhece a gestante previamente, mas dá um suporte que os demais profissionais não conseguem dar devido à demanda hospitalar, chama-se doula voluntária ou institucional. Pode ocorrer de uma forma particularizada, onde a profissional é contratada pela gestante, conhecendo-a antes, acompanhando sua gestação e aconselhando/ensinando a respeito do trabalho de parto e  o puerpério (pós-parto).

São orientações a respeito de como passar pelo trabalho de parto de uma maneira mais tranquila, falando sobre massagens, respiração, exercícios, posicionamento, tudo que possa ajudar a gestante a aliviar suas dores e seus medos, além de orientar o companheiro em como ajudar a gestante neste momento tão delicado, sendo útil e dando um suporte para a gestante, participando ativamente do parto. Ainda presta informações a respeito dos tipos de parto, com suas vantagens e desvantagens, para que a opção seja feita de modo consciente, além de preparar a mulher para para os procedimentos médicos propriamente ditos, as intervenções, orientando como ocorrerá no dia do parto, deixando-a mais ciente e tranquila.

A doula também atua nas cesárias, dando apoio, confortando e ajudando a parturiente a relaxar durante a cirurgia. Após o parto é responsável pela assistência em relação a essa fase, orientando quanto a amamentação, cuidados com o bebê, etc.

Assim, podemos dizer que as funções básicas de uma doula são: acompanhar, oferecer um suporte emocional e físico à gestante, acalmar, passar seus conhecimentos, tudo com o objetivo final de ajudar a parturiente e também seu companheiro a passarem por este momento, o nascimento do bebê, da melhor forma possível.

A doula não faz procedimentos médicos nem exames, e nem mesmo cuida do recém-nascido, e por isso, não substitui qualquer profissional da área médica. É importante salientar que muitos médicos ginecologistas/obstetras prestam esse suporte às suas pacientes, fornecendo todo o suporte, seja ele físico ou emocional, necessário para que a gestante e seu companheiro fiquem tranquilos no momento do parto, bem como dando orientações a respeito das dores do trabalho de parto e de métodos para amenizá-las. 

A formação para ser doula ainda é privada, em cursos  que ocorrem timidamente pelo Brasil, tendo sido o primeiro no ano de 2001, na cidade de Campinas. Por serem cursos privados e não obrigatórios, há uma variação de carga horária, sendo de 40h este da cidade de Campinas. Não há uma profissionalização oficial, pois é uma atividade que atua sem oferecer riscos à população.

As doulas de atuação institucional, ou seja, aquelas que trabalham junto aos hospitais, normalmente são ali treinadas.

 

SAGE-FEMME:

Essa profissional (tradução: mulher-sábia), também conhecida como accoucheuse ou maïeuticienne possui basicamente as mesmas funções de uma doula  realizando um acompanhamento à gestante antes, durante e após o nascimento do bebê; porém, esse acompanhamento pode ir um pouco mais além do acima descrito.

A possibilidade de ir um pouco além é devido ao fato da mulher ter a opção de escolher, aqui na França, o profissional que vai fazer o seu pré-natal, dentre eles uma sage-femme, um ginecologista ou um obstetra. No meu caso em que estou sendo acompanhada por um obstetra desde o princípio, a sage-femme acaba por ter uma função praticamente igual a “doula particular”, e ocorre a partir da 30 semana de gestação, mais ou menos. Ou seja, ela entra em cena no final da gestação para aproximadamente 10 sessões onde tratará com a gestante (e com o seu companheiro, se possível) sobre diferentes temas como: a dor, a peridural, a respiração durante o trabalho de parto, exercícios e posicionamentos para aliviar as dores nas costas e as dores do parto, como é o dia do nascimento, os procedimentos médicos do dia do nascimento que são obrigatórios e os que não são, aleitamento, etc. Cada encontro tem um tema pré-definido. Assim, neste caso, ela atua sim como uma doula, sendo o seu papel aconselhar, acalmar, orientar.

Caso a gestante opte por ser acompanhada desde o princípio por uma sage-femme, essa será responsável por realizar o diagnóstico e a declaração da gravidez (sim, aqui você ganha uma declaração que está grávida, para encaminhar a aos organismos públicos como o sistema de saúde e o de assistência a moradia) e todo o procedimento que o gineco e o obstetra também realizam no pré-natal: pedir exames, analisar seus resultados e até mesmo realizar ecografia. Mas é importante frisar que a sage-femme só pode acompanhar a gestante durante toda a gestação se aquela não tiver nenhum antecedente patológico. Desde 2009, a sage-femme pode ainda prescrever a contracepção feminina.

 

Bem, há duas grandes diferenças entre essas profissionais, pelo que pude perceber (da minha vivência até este momento e das minhas leituras):

1) durante o nascimento a sage-femme é a pessoa responsável por todos os procedimentos antecedentes ao parto, sendo ela quem faz o monitoramento da dilatação, o acompanhamento das condições do bebê, quem orienta a gestante buscando o seu conforto e quem chama o anestesista quando a parturiente decidir pela peridural. É responsável também pelo parto natural (sem a necessidade de nenhum acessório – se precisar de fórceps, por exemplo, outro profissional que atua) nas maternidades, sendo que o obstetra só entra em cena na necessidade de uma cesária. Neste dia tão importante, essa profissional possui também a função de assegurar a boa saúde do recém-nascido e analisar os seus reflexos. A doula, ao contrário, não pode realizar o parto, mesmo que normal, nem mesmo se ocupa do bebê logo após o nascimento.

2) no que diz respeito a formação, a da sage-femme é bem extensa, são 5 anos, à nível de graduação. É realizada por uma escola especial ligada à maternidade, sendo a admissão nesta escola feita por classificação. O diploma é emitido pela Faculdade de Medicina, pois o primeiro ano é feito conjuntamente com outros cursos da área da saúde – medicina, farmácia e cirurgia dentária – (nos 4 anos restantes, 1/3 é dedicado á parte teórica e 2/3 à parte prática).  

Após o nascimento, as sages-femmes dão uma espécie de monitoramento para as mamães, por uma semana, orientando sobre os cuidados com o bebê, a amamentação, contracepção hormonal e reeducação uro-ginecológica. 

 

Algumas curiosidades:

* Aqui na França o acompanhamento da sage-femme não é obrigatório, porém muito aconselhado, especialmente no caso de tratar-se da primeira gestação. Esse acompanhamento é pago pelo sistema de saúde.

* Em todo o post me referi às profissões de doula e sage-femme no feminino, simplesmente pelo fato da grande maioria dos profissionais atuantes serem mulheres; porém, é importante dizer que não são profissões exclusivas do sexo feminino, podendo sim serem exercida por homens. À nível de curiosidade, a profissão foi aberta aos homens aqui na França em 1985, e a sua denominação é Accoucheur ou Maïeuticien.