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Meu parto… um momento mágico!

Ontem o meu maior e melhor presente completou 5 meses de vida (fora da barriga)!  E não teria um dia melhor para retomar os posts aqui no blog!

E como o dia foi dedicado ao Pedro, o post é sobre a maravilhosa vinda dele para os nossos braços: o “relato do meu parto natural”!!

😉

Durante toda a minha gestação eu lia relatos, livros e mais livros, via vídeos na internet, e assim me preparava para o meu parto! Me emocionava muito com os relatos de partos, fossem normais ou cesáreas, especialmente no último mês de gestação. E claro, sempre pensava em escrever meu próprio relato para partilhar a nossa história, inspirar e encorajar outras mulheres ao parto natural e também para contar como é ter um bebê aqui do outro lado do mundo, na França, um país onde, diferentemente do Brasil, a cesárea é exceção.

Nosso pequeno Pedro chegou 16 dias antes da data prevista pelo médico, no dia 19 de julho, com 38 semanas e 5 dias de gestação.

Neste dia acordei às 05h20min, horário que normalmente levantava para ir ao banheiro durante toda a gestação. Porém, naquele dia senti algo diferente… uma leve dor, muito parecida com uma cólica menstrual. Como não era nada muito forte, voltei a dormir! Vinte minutinhos mais tarde acordei com a mesma dorzinha! Chamou-me atenção o intervalo de 20 minutos, tempo esse descrito como o primeiro intervalo entre as contrações regulares.

Tendo programado uma caminhada logo cedo com o maridão, às 7h, fiquei acordada até esse horário, sentindo meu corpo, reparando o tempo de intervalo e percebendo as mudanças que estavam por vir. Às 7h acordei o Cris, relatei o que vinha ocorrendo e fui para a bola suíça (aquela usada no pilates) administrar as dores, que até então eram suaves, ainda como uma cólica.

Devido ao fato de saber que caminhadas ajudam no trabalho de parto, e imaginando que pudesse ser o dia do nascimento do Pedro, decidimos manter a nossa caminhada. Enquanto nos aprontávamos, por volta das 8h, o tampão saiu… na teoria era bem mais fácil de identificar: líquido mais espesso, um pouco gelatinoso (como uma clara de ovo), de coloração clara ou levemente amarronzada (devido a presença de sangue) e cheiro de água sanitária! Ok, mas na prática, fiquei com um “será?!”… seguido de um “tudo bem, ACHO que é o tampão!”

Saímos para a caminhada: passeamos pela beira do rio, bem mais lentamente que a marcha habitual, precisando parar ao sentir algumas contrações, pois as danadas aumentavam, tornando-se mais freqüentes e doloridas. Aproveitando a caminhada, passamos na farmácia para comprar o Spaflon, um remédio que inibe falsas contrações, ou seja, tomando ele, se elas continuarem, é porque realmente chegou “a hora”. Ainda na farmácia, sob os olhares das atendentes e clientes (pois a dor neste momento já não podia ser disfarçada), abraçada no Cris, senti uma forte dor e um líquido descendo… minha bolsa estourou! Não escorreu líquido pelas pernas como li várias vezes, mas como o Pedro estava com a cabeça encaixada há dois meses, sabia que esse líquido poderia descer aos poucos.

De volta para casa, fui para um demorado banho quente para ajudar a relaxar. O Cris começou a arrumar as coisas que faltavam, segundo uma listinha já preparada por mim, enquanto eu me estiquei no colchão colocado na sala, fui para a bola suíça e caminhava pela casa, administrando as contrações. O líquido continuava a sair.

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Relaxando e conversando com o Pedro

Não pensei em anotar as contrações, na verdade nem sei bem o motivo de não ter feito… no meu coração já tinha certeza de que o Pedro estava a caminho, não precisava comprovar que estava em trabalho de parto. Ligamos para a sage-femme que pelo nosso relato confirmou tratar-se do grande dia, desejando “bon courage” (boa sorte).

11h15min eu e o Cris saímos para a maternidade, um dia quente de sol, todo perfeito pra que a mais linda das criaturas de Deus viesse para esse mundo! Foi um percurso, casa – maternidade, emocionante, cheio de dores e sorrisos… nem precisávamos falar nada, nossos olhares um para outro eram repletos de carinho e amor… sabíamos que nosso pequenino estava a caminho!

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Felizes indo “buscar” o nosso petit Pedro

Já na maternidade aguardamos em torno de 30 minutinhos até sermos encaminhados à sala de exames.

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Em um intervalo de contrações… feliz da vida!

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Durante uma contração… mas ainda feliz da vida!

Nesta sala as minhas contrações e os batimentos cardíacos do Pedro eram monitorados. Pouco antes das 13h o primeiro exame clínico constatou uma dilatação de 4cm. Confesso que neste momento fiquei um pouco tensa… diversas vezes escutei da minha mãe que ninguém da minha família tinha passado dos 4cm de dilatação, e que não seria diferente comigo por uma questão de genética 🙁

A sage-femme que nos acompanhava foi muito sábia (sage) ao me falar das contrações, dizia que elas eram, naquele momento, minhas melhores amigas, pois eram as responsáveis por trazer o meu filho aos meus braços. Orientou-me a respirar lentamente e me movimentar, saindo da cama. Foi muito bom e importante escutar aquelas palavras, pois me fez lembrar que a dor que eu estava sentindo era normal, era natural, e era a responsável por fazer com que o Pedro pudesse nascer… era meu corpo querendo me oferecer o melhor presente da minha vida!

Ficamos mais umas 2h30 nesta sala, freqüência e intensidade das contrações aumentando bastante. Eu e o Cris tentavamos de tudo… posições, rebolar, pontos de shiatsu que ele apertava a cada contração para aumentar minha tolerância a dor (esses são mágicos, leia a respeito aqui), bola suíça (onde passei a maior parte do tempo), massagens… ele, o meu maridão como chamo, esteve sempre presente, sempre ao meu lado, me dando suporte físico e emocional, realmente acreditando na minha capacidade de dar a luz por parto natural, algo tão intensamente desejado por mim. Contudo, apesar de todas essas manobras e todo o apoio que recebi, a esta altura, mesmo nos intervalos das contrações as dores continuavam, ainda que mais fracas.

Por volta das 15h30min um novo exame clínico… meu coração disparou: 7cm de dilatação!! Minha alegria foi enorme, e por alguns instantes pensei em continuar sem anestesia, pois estava ciente de tudo que a anestesia acarretaria, como a impossibilidade de eu fazer qualquer coisa para ajudar no parto, além de torná-lo mais lento, o que poderia desencadear em várias intervenções, como o uso do fórceps e até mesmo uma cesariana. Porém, as dores das contrações estavam intensas, e no intervalo entre elas já não era possível relaxar e descansar.
Decidi pela peridural, decisão 100% apoiada pelo maridão, que percebia que não estava sendo fácil para mim.

Assim, partimos para a sala do nascimento, e as 16h10min recebi a anestesia, uma dose leve, conforme solicitamos.
As dores passaram em seguida, restando um leve desconforto a cada contração, como se fossem as cólicas iniciais.

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Sem dores, no aguardo do meu pequeno!

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Melhor equipe de apoio do mundo! Obrigada!!

Perto das 18hs um novo exame clínico constatou que eu estava com quase 9cm de dilatação, quase dilatação completa!! Porém, as dores voltaram, somadas ao cansaço de mais de 10 horas de trabalho de parto. O fato de estar deitada na cama (eis que já tinha recebido a peridural e não poderia mais me movimentar como antes, deixando de ser tão ativa no parto) agravavam as dores, pois sempre tive dores nas costas, e estas já estavam cansadas. Piorando o meu quadro, precisei ficar na posição ginecológica para que o Pedro “descesse”, e ali fiquei bastante tempo. Para mim esta posição foi ruim,  pois além de todas as dores que eu estava sentindo, o cóccix também começou a doer (tinha quebrado o cóccix há 2 anos).

Solicitamos mais anestesia, porém devido ao fato das dores não serem das contrações, mas da posição do Pedro, costas e cóccix, nada mudou! Além da segunda dose da peridural, neste momento administraram 1,5ml de ocitocina por hora, com o objetivo de regular as contrações.

Chegando perto das 19h, percebemos que o nascimento seria um pouco “adiado”, pois neste horário ocorre a troca de profissionais da maternidade, e já não daria mais tempo de iniciar a fase de expulsão e terminar até às 19h. Ok, era hora de administrar a ansiedade!

As dores continuavam, um mistura de contrações, costas e cóccix, então as 19h20min foi administrada mais uma dose (a última) de anestesia, e elevaram a dose de ocitocina, agora para 3,5ml por hora.

Neste momento também começam a arrumar a sala para o grande momento… frio na barriga, medo da dor, ansiedade pela chegada do Pedro, dores, tudo se misturando!!

As 20hs ocitocina foi pra 5.5ml/h e iniciamos o trabalho de expulsão. Inicialmente a sage-femme me pediu para que eu fizesse força para a saída do bebê… contudo a força que eu fiz não era suficiente. Orientada a fazer a maior força que conseguiria, inclusive segurando as barras da cama para ajudar, segui meu trabalho. O Cristiano foi orientado a empurrar a minha nuca a cada contração, o que parece agressivo, mas facilitava muito o meu trabalho.

Por volta das 20h20min a sage-femme chamou o médico, é chegada a hora!!

Continuávamos a fazer força a cada contração, mas aqueles instantes foram tão intensos que, quando percebi o médico mandou eu parar: ops, eu sabia que ele só mandaria eu parar quando o Pedro estivesse saindo! Estávamos na reta final. Então olhei para o lado e vi o maridão emocionado que me falou “já vi a cabecinha dele”!!

Em poucos segundos meu filho já estava em meus braços! Foi o tempo que o Pedro teve para chorar, pois assim que foi colocado em meu colo, fazendo o “peau a peau” (pele a pele) ele se acalmou e ficou ali, olhando para a mamãe e o papai, conhecendo e curtindo a sua família… Essas duas horas foram inesquecíveis, somente nós três na sala, eu e o Cris nos conhecendo agora como pais e admirando o nosso pequenino que nos olhava com atenção e muito amor!

Às 20h46min do dia 19 de julho de 2013, com 2,880kg e 48cm de pura gostosura, Pedro veio ao mundo me mostrando que a vida poderia sim ser mais colorida, mais intensamente vivida e repleta de amor!

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Meu tesouro!

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Como diria o “Tio Dani”: a foto não é perfeita… mas o momento é!

 

Minhas impressões:

* o longo trabalho de parto, quando verdadeiramente vivenciado, passa tão rápido que até dá vontade de voltar no tempo;

* as dores são suportáveis se sentidas a cada contração (e não pensando nas 12h de trabalho de parto)… vivenciá-las uma a uma, eis o segredo!

* ao ser questionada sobre as dores, respondo que tive um parto atípico: senti muitas dores, mas tenho a consciência de que eram decorrentes de outros fatores (cóccix e costas). As contrações? Expulsão? Dessas tenho até saudades!

* a dor da expulsão, que realmente me assustava, foi mínima! O corpo é sábio… banhado em ocitocina torna esse momento mágico!

* quando mesmo posso encomendar o segundo baby e repetir a dose??

 

UM ADENDO: li em diversos lugares a informação de que a dor do parto normal é equivalente a dor de 20 ossos quebrando ao mesmo tempo – balela!!

Deixo o registro de que quebrar o cóccix dói muitoooo mais que ter um filho! 😉

 

 

Massagem – como ajudar a aliviar as dores da gestante!

POST ESCRITO NO DIA 18/07/2013 – UM DIA ANTES DA CHEGADA DO NOSSO PEQUENO PEDRO!

 

Está chegando a hora!! Começo a perceber que o momento está próximo quando recebo o primeiro desejo de “bom parto, que tudo ocorra bem!” ao me despedir de uma amiga que iria sair de férias… frio da barriga! Logo depois, ao verificar os dias agendados com a sage-femme, me deparo apenas com mais UM encontro?! É… tá chegando a hora de conhecer a carinha do nosso pequeno Pedro! Mas confesso que não me sinto ansiosa! Ahh essa é a pergunta campeã da atualidade… estou esperando, uma ansiedade boa poderia dizer, mas nada de nervosismo até agora! Eu e o Cris nos sentimos bem preparados para a chegada do Pedro, estudamos bastante, conversamos muito um com o outro, ele foi super dedicado me acompanhando em TODAS (sem faltar nenhuma mesmo) as consultas com o obstetra e a sage-femme, e nada mais natural que chegar o grande dia!   Bem, mas antes ainda tem esse relato do nosso último encontro com a sage-femme, um assunto delicioso e que eu amoooo: massagem! Confesso que a expectativa para esse encontro foi grande, afinal, quem não quer receber uma massagem?

Bem, inicialmente usamos mais da metade da consulta para tirar nossas dúvidas a respeito de tudo o que já tínhamos escutado nos nossos encontros e mesmo de nossos estudos. Super produtivo e importante, afinal a hora está chegando!

Num segundo momento chegou a hora da massagem: não sei se pelo fato de eu ser esteticista e trabalhar com massagem, já tendo atendido gestantes, estudado na faculdade massagem para gestante ou lido muito a respeito, ou ainda tudo isso junto (bem provável), mas saí um pouco frustrada desse encontro. O Cris também teve essa sensação, talvez por ser esposo de esteticista e até já ter feito algumas manobras de massagem em mim, mesmo antes da gestação (que maridão, não é?!).

Bem, o fato é que a massagem foi super simples. Desta forma decidi passar aqui algumas dicas de posicionamento e movimentos que são eficazes para o alívio da dor nas costas, que é a região mais sobrecarregada no período gestacional. Essas dicas são uma mistura do que a sage-femme nos passou e do que costumo aplicar nas minhas massagens.

* posicionamento da gestante: pode ficar deitada de lado (o ideal é colocar um travesseiro ou uma almofada de amamentação entre as pernas para alinhar a coluna, e um travesseiro que preencha o espaço entre o pescoço e o ombro) ou sentada na cadeira invertida ou na bola suíça apoiando a cabeça e os braços na maca/mesa/cama alta, mais ou menos como nas fotos abaixo.

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* musculatura a ser trabalhada: a musculatura que é mais exigida durante a gestação, devido a alteração do centro da gravidade da gestante, é a musculatura das costas, desde a região lombar até a cervical. Como o centro de gravidade é deslocado para frente, o corpo automaticamente força a musculatura das costas para que a gestante não caia para frente, sendo essa contração inconsciente.

No meu caso que adotei a mesma posição de dormir desde o princípio da gestação (de lado e para o lado esquerdo), as dores se concentram num mesmo local, musculatura ao lado da coluna mas especialmente do lado esquerdo e trapézio esquerdo.

No desenho abaixo temos duas linhas (em vermelho) que na medicina ocidental correspondem aos meridianos. A primeira, mais central, fica bem ao lado da coluna vertebral, enquanto a segunda fica do lado interno da escápula. Estas duas linhas (da nuca até a base da coluna) podem servir de base para a massagem nas costas da gestante. Importante lembrar que ao massagear essas linhas não devemos massagear a parte óssea (coluna e escápulas), apenas a musculatura.

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Nas fotos abaixo os polegares das massagistas estão posicionados nestas linhas referidas; perceba que na segunda foto a linha é menos central.

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* inicialmente, antes mesmo de passar qualquer produto, massagear todas as costas com uma bolinha (borracha ou de tênis), com o objetivo de soltar a região.

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* passar um creme ou óleo na região das costas – o ideal é que seja um óleo especial para massagem (passar sem exagero, o suficiente para deslisar), pois com o creme é necessário ficar repassando devido a absorção do mesmo;

* movimentos a serem feitos: na verdade qualquer manobra que movimente a musculatura vai ajudar, pois vai mobilizar e soltar a região que está sempre contraída. porém há algumas clássicas:

– na musculatura que fica ao lado da coluna vertebral, fazer os seguintes movimentos, nos dois sentidos (de baixo para cima e o inverso): círculos com os polegares, deslisamento com os polegares, pressão com os polegares.

– repetir os movimentos na linha que fica ao lado das escápulas (linha menos central).

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Pressão com os polegares

– massagear ao redor da escápula (e não em cima dela). É muito bom se conseguires massagear por baixo da escápula, erguendo-a um pouco e até mesmo mexendo (mobilizando) um pouco essa estrutura óssea (facilitará se você apoiar  com a mão que não está massageando no ombro, fazendo uma leve força contrária). imagem7 – com uma mão por cima da outra, massagear toda a lateral das costas em movimentos circulares e amplos, com a parte mais gordinha da palma da mão (reparar na foto abaixo). Caso a gestante esteja deitada de lado, o ideal é fazeres este movimento na região da coluna para cima e depois a gestante vira de lado para receber do outro lado das costas.

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 – para finalizar, com a gestante sentada, massagear a região do trapézio e pescoço. Nesta região é comum as pessoas fazerem uma espécie de “amassamento” (aquela massagem clássica que todo mundo faz nesta região) –> aconselho que seja realizado apenas o deslisamento com os polegares ou com a lateral da mão, da região do pescoço, passando pelo trapézio até os ombros, pois é uma região muito dolorida, e caso o amassamento não seja bem feito, pode causar forte dores.

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Com os polegares…

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…com a lateral das mãos

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Sentido da massagem

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como NÃO fazer (exceto se for profissional)

 

OBS.: muitas fotos deste post foram retiradas do google. Assim, caso o(a) autor(a) das mesmas desejem que eu as retire do blog, basta entrar em contato comigo pelo email abpetry@gmail.com

Você sabe como respirar durante o trabalho de parto?

No nosso sétimo encontro com a sage-femme aprendemos sobre a RESPIRAÇÃO. Ela nos explicou o porquê da importância de bem respirar, sendo os objetivos a boa oxigenação do bebê, e também a concentração no momento da contração no ato de respirar, o que fará com que não se perca o foco e acabe por dar uma atenção maior que a necessária para a dor. Ou seja, prestando atenção no ato de respirar durante a contração e dedicando-se totalmente a isso, a dor tende a não tomar uma proporção maior que a real.

No post do primeiro encontro com a sage-femme escrevi o seguinte:

“(…)ficou claro que o ideal é desligar do mundo e estar o máximo possível relaxada, sem preocupações… conhecer o que virá pela frente apenas para aceitar o trabalho de parto, as contrações e a dor, passando por cada contração com tranquilidade. Respirar, respirar, respirar!

É possível? Diferentemente do que a maioria das pessoas imagina, o trabalho de parto não é todo ele dolorido. Apesar de poder durar horas e horas (e isso também varia conforme a natureza de cada mulher, mas em média umas 10 horas – 1h para cada centímetro de dilatação), as contrações ocorrem, quando no trabalho de parto chamado ativo, a cada 5 minutos, e com duração de 60 a 90 segundos.

Bem, pensando nestes números, temos que a cada 1 minuto de dores, terei 4 de total ausência de dor! Pensando assim, fica mais fácil aceitar o momento e respirar, buscando a calma e a tranquilidade para mais 1 minutinho, e mais um… um após o outro.”

Então, vamos aprender como respirar neste momento tão dolorido mas igualmente especial.

Entre as contrações, a respiração deve ser a mais normal possível! Neste momento o útero encontra-se relaxado e o corpo descansa, buscando energia para a próxima contração. Não há desconfortos nesta etapa, por isso é importante a respiração normal da gestante.

Mas como é a sua respiração? Normal? A minha, por exemplo, não é nada do que podemos chamar de “normal”, respiro pela boca na maior parte do tempo e tenho uma respiração essencialmente abdominal. Pois é, cada pessoa tem o seu modo de respirar, e é importante conhecer o seu!

Durante as contrações, apesar de um pouco diferente, a respiração é muito simples de ser realizada. E tinha que ser assim, afinal, estar com dores e fazer algo complexo seria pedir demais né?!

Então em cada contração o que devemos fazer é inspirar lentamente, preferencialmente pelo nariz, sentindo o ar entrar no corpo e encher primeiro o abdômen e logo após os pulmões. Quando isso ocorrer, nosso abdômen e o tórax vão inflar (as costelas se afastam), e por fim os ombros vão se elevar. Após, expirar lentamente pela boca, fazendo um biquinho (como se estivesse soprando uma vela) para que o ar saia bem devagar – neste momento tórax e abdômen murcham.

Cada pessoa te o seu ritmo, mas é importante que faça a respiração lentamente e, preferencialmente que o tempo de inspiração seja o mesmo que levamos para expirar, podendo até contar.

No encontro, fizemos uma simulação do tempo das contrações. A sage-femme marcava no relógio 4 minutos de respiração normal, e após 1 minuto fazendo essa respiração, imaginando a contração. Após algumas repetições, ela passou a diminuir gradualmente o tempo entre as contrações, para 3 minutos, 2 minutos e enfim um minuto, mantendo a duração de 1 minuto para cada contração.

No meu caso, por exemplo, eu conseguia fazer umas 4 respirações completas em 1 minuto. Passava rapidinho… e isso foi muito bom para que eu pudesse perceber que é possível aguentar a dor, além de notar que o tempo que ficamos sem contração é essencial para uma boa recuperação para a próxima contração.

Uma coisa muito importante é treinar a respiração! E uma ótima hora para treinar é quando estamos tendo as contrações de treinamento (aquelas que vem antes do trabalho de parto, e são irregulares e indolores – no meu caso começaram mais ou menos com 34 ou 35 semanas, mas conheço mulheres que tinham desde a metade da gestação).

Para mim, que normalmente respiro com o abdômen e pela boca, foi muito difícil essa respiração, sendo essencial o treinamento. Meu tórax não enchia muito de ar, não sentia ele inflar, além de sentir que inspirando pelo nariz não entrava ar suficiente… mas passei a repetir a respiração durante as contrações de treinamento, e mesmo nos momentos que estava descansando, deitada no sofá, por exemplo, e hoje posso dizer que melhorei muito! Hoje percebo claramente o tórax inflando e sinto que recebo mais ar, e sei que isso beneficiará a mim e ao Pedro no seu nascimento.

Por fim, na nossa simulação veio a hora da expulsão do bebê. Nesta hora certamente terá alguém da equipe médica orientando a gestante a como proceder, avisando quando segurar o ar e fazer força, especialmente se a mamãe recebeu uma peridural (pois neste caso não estará sentindo as contrações).

Neste momento a respiração deve ser igual a descrita acima, realizada durante as contrações, com um pequeno intervalo entre a inspiração e a expiração, onde seguramos o ar, por aproximadamente 7 segundos, e fazemos força para a expulsão do bebê. Essa força é a mesma de quando vamos ao banheiro. Repetimos até que a contração termine.

OBSERVAÇÃO: li em diversos lugares outra respiração que deve ser feita na fase de expulsão, informando que ao segurarmos o ar e fazermos força com o abdômen o bebê sobe, ao contrário do que queremos neste momento, que ele desça.

Podemos fazer a experiência colocando a mão sobre o abdômen e sentindo que realmente a tendência é que o bebê suba se fizermos força abdominal da maneira descrita.

Assim, a outra forma de respirar na fase de expulsão é expirar profundamente usando os pulmões e o diafragma para empurrar o bebê para baixo, sendo possível sentir que a barriga realmente desce.

 

Neste encontro fizemos as simulações, eu e o Cris. Inicialmente parece estranho o papai fazer os exercícios de respiração… para que? Porém, é essencial que ele também tenha conhecimento sobre os tipos de respiração, pois desta forma será muito mais fácil perceber se estivermos respirando de modo errado ou mesmo “esquecendo” de respirar durante o trabalho de parto. Poderá assim ajudar orientando a respiração e até fazendo junto, ajudando e vivenciando esse momento único!

Sage-femme – segundo encontro!

Após o segundo encontro com a sage-femme, ocorrido no dia de hoje, fiquei pensando o que eu escreveria aqui, e quase quase que este post não sai.

O fato é que o assunto de hoje foi mais técnico, poderia assim dizer, onde ela desenhou o posicionamento do bebê do ventre, nomeou algumas estruturas fisiológicas que participam do parto e simulou com uma boneca, alguns tecidos e a pelve (osso da bacia – forma antiga de chamar essa estrutura) a forma como o bebê saí no parto natural. Falou do rompimento da bolsa, do início do trabalho de parto e mais algumas informações práticas do dia do nascimento. O que falar de tudo isso? E o mais importante: para que?

Bem, o fato é que eu e o Cris, apesar de percebemos que são informações com as quais não podemos fazer nada de prático, são super importantes para que a gente saiba o que estará acontecendo com o meu corpo na hora do parto e o simples saber, certamente nos deixará mais tranquilos. E nada melhor do que a tranquilidade para esse dia tão especial!

 

Sendo assim, começamos o nosso trabalho de parto, o de hoje virtual e imaginário.

Algumas pessoas tem como marco para este momento o rompimento da bolsa amniótica, mas é sabido que um bebê pode nascer até mesmo sem essa se romper. Então, o trabalho de parto tem como “início oficial” quando a gestante tem, por 1 hora, contrações fortes e regulares, numa frequência de aproximadamente uma a cada 5 minutos. 

É importante ter em mente que a gestante normalmente tem contrações irregulares antes desse “início oficial”, que são chamadas de pródromos ou contrações de treinamento ou contrações de Braxton-Hicks ou ainda, contrações falsas. São contrações que aparecem e desaparacem, não sendo doloridas, um leve desconforto, e que duram em média de 30 a 60 segundos. Podem ocorrer por vários dias e sua principal característica é a IRREGULARIDADE e o fato de não aumentarem de intensidade. Há mulheres que quase nem percebem essas contrações. Costumam ser sentidas a partir da 16a semana, mas podem vir até antes ou bem depois!

Outro fenômeno que pode ocorrer é a saída do tampão… uma espécie de gelatina, como a clara do ovo, que serve para proteger a entrada do útero. Ele pode ter uma cor mais escura, até meio amarronzado, devido a presença de um pouco de sangue, sem que seja um motivo para maiores preocupações. O tampão pode até mesmo ser refeito naturalmente, e não é motivo para perder a calma! Normalmente a saída do tampão é um indicativo de que o trabalho de parto se aproxima, porém o tempo é variável, podendo iniciar horas após ou até mesmo dias depois (até mesmo 2 semanas).

 

A duração do trabalho de parto pode variar de mulher para mulher, mas em média, em uma primeira gestação, ela dura entre 8 e 15 horas, considerando-se o “início oficial” acima descrito.

PS.: como podemos ver, todos os prazos são variáveis! Isso porque cada mulher é uma, cada parto também… a mesma mulher pode ter partos que ocorrem de maneiras completamente diferentes! Então, tudo o que se fala aqui e o que os livros trazem, são médias, servem apenas para termos uma idéia da sequência que estamos descrevendo.

 

Como normalmente a bolsa amniótica se rompe, preciso estar preparada para “o que fazer?” e saber “O que vou sentir?”

Quando esse fenômeno natural ocorrer, o esperado é que saia um líquido claro como a água e que o bebê continue a se movimentar normalmente, se assim for, a parturiente não precisa se assustar e correr para o hospital. Importante frisar que a indicação médica mais comum é de que se vá diretamente para o hospital/maternidade, uma vez que com esse rompimento abriu-se uma janela para as infecções, pois não há mais a proteção natural do bebê e o meio em que ele se encontra passa a não ser totalmente estéril. Contudo, é sabido que o ambiente hospitalar não é o mais indicado quando falamos de infecções, afinal é para lá que as pessoas vão para se tratarem de problemas infecciosos, e as bactérias existentes no hospital são, de regra, inúmeras vezes mais resistentes que as presentes em nossa casa. Assim, presente estes requisitos (líquido claro e movimentação normal do bebê), podemos ficar tranquilos e em casa, por mais umas 3 ou 4 horas. É permitida e recomendada (para se ter energia para as horas que teremos pela frente) a ingestão de comidas leves (churrasco não é o mais indicado, atenção!) como frutas frescas ou secas e carboidratos de fácil digestão – afinal após chegar ao hospital você ficará impedida de comer por várias horas -, um banho de chuveiro (no caso do rompimento da bolsa não é indicado o banho de banheira face ao maior risco de infecção) e muita calma!

As contrações passarão a ser mais fortes após esse momento. Por este motivo, caso não ocorra o rompimento da bolsa amniótica naturalmente e a parturiente ainda não tenha solicitado a peridural, é recomendado que o rompimento não seja feito pelo profissional de saúde, pois só fará aumentar as dores da gestante.

 

Na hora exata do nascimento ocorre um alargamento da pelve (ela tem uma certa mobilidade) que somada com a mobilidade da cabeça do bebê (suas placas ósseas na cabeça ainda não são fixas) permite a passagem do mesmo. Para isso o ideal é que ele esteja posicionado com o rosto virado para as costas da mãe, e logo após a saída da cabeça naturalmente ocorre uma pequena torção do bebê para o lado, saindo então o seu corpinho, que é bem mais molinho que a cabeça.

Caso ele esteja virado com a face para a parte da frente do corpo da mãe, o nascimento por parto normal pode ocorrer, porém devido a compressão da nuca do bebê (parte com maior diâmetro) com o osso pelve, a gestante pode sentir dores nas costas durante as contrações (normalmente a dor da contração é centrada no abdômen).

 

Aproximadamente após uns 20 minutinhos sairá, também com uma contração (mas bem menos dolorida), a placenta e o trabalho de parto está finalmente finalizado. A partir deste momento, ocorre um sangramento natural, ficando a gestante por mais ou menos 2 horas na sala do nascimento para que seja monitorada. Neste tempo a família (bebê, papai e mamãe) está se descobrindo, é também o momento da primeira amamentação e essas 2 horas passam rapidamente.

 

No próximo encontro continuaremos falando sobre o andamento do dia do nascimento e as intervenções médicas que são obrigatórias e as que são dispensáveis…

 

Em tempo, e por conta: Caso você, assim como eu, tenha interesse em estudar sobre o trabalho de parto, verá que existem descrições de diferentes fases e estágios do trabalho de parto. E neste caso perceberá algumas diferenças com o que relatei aqui (até mesmo porque não entrei no assunto de nenhuma fase com nomes específicos).

O fato é que o objetivo desses posts é informar sobre meus encontros com a sage-femme, as informações repassadas por ela e como estou me sentindo a respeito da minha gestação e da proximidade com o parto.

Mas vou tentar resumir esses estágios e fases para que fique o registro e não haja confusões.

Primeiramente pode-se dizer que o trabalho de parto tem 3 estágios, compostos de fases:

A) Estágio onde ocorrem as contrações, composto de 3 fases:

FASE LATENTE ou PRÉ-TRABALHO DE PARTO –> contrações ritmadas, de 20 em 20 minutos, 15 em 15 minutos e cada vez diminuindo mais esse tempo de intervalo. Neste momento as dores são suportáveis e o corpo feminino passa a se banhar de ocitocina, o hormônio do bem-estar. Estar conectada com o maridão nesta fase é ótimo, pois a emoção de saber que logo chegará seu bebê e de passar por esse período tão importante juntos é enorme!

Curiosidade: Inúmeros relatos falam de um pico de energia nesta fase, como o aumento da vontade de caminhar, correr, limpar a casa, lavar o carro, organizar as roupinhas do bebê, etc. Loucura hormonal? Pode ser, mas acredito que o melhor seja economizar as energias e tentar manter a calma, pois em breve seu corpo será super exigido.

 

FASE ATIVA –> é a fase em que a sage-femme considera o início do trabalho de parto, ou seja, contrações regulares com intervalos de 5 minutos, aproximadamente. Porém há relatos desse requisito ser ligado ou alternado, leia-se e/ou, com mais de 4 ou 5 centímetros de dilatação. Normalmente por serem bem mais doloridas, a gestante não consegue falar enquanto está tendo uma contração. Apesar da variação entre as gestantes, ao que tudo indica esta é a fase mais longa do trabalho de parto. aqui a respiração e o relaxamento são essenciais.

 

FASE DE TRANSIÇÃO –> inicia-se em torno de 7 ou 8 centímetros de dilatação e vai até a dilatação completa, ou seja, 10 centímetros. Nesta fase as contrações vem em intervalos ainda menores, aproximadamente de 2 em 2 minutos.

É comum a mulher entrar em uma espécie de “estado de transe”, face ao elevado nível de ocitocina no corpo. Pode até mesmo ocorrer dela sequer responder com coerência o que lhe questionam, isso quando responder. Nesta fase a mulher pode desacreditar na sua capacidade de seguir com o parto normal, diz não conseguirá, que vai desmaiar ou morrer. Pode sentir náuseas, tremedeiras e até vomitar. É comum pedir a peridural nesta fase.

Medidas de conforto são necessárias aqui, palavras que a estimulem e a encorajem, música relaxante, massagens, mas devido ao estado em que se encontra, tudo isso pode irritá-la. Pode-se dizer que é o período mais intenso, físico e emocionalmente, do trabalho de parto!!

 

B) Estágio Expulsivo –> é nesta etapa que ocorre a saída do bebê. A gestante encontra-se normalmente mais lúcida e ativa. Este período inicia com 10 centímetros de dilatação e é quando o útero empurra o bebê pelo canal vaginal. As contrações continuam (podendo haver um pequeno intervalo entre estes estágios), e a cada uma delas o bebê desce mais um pouquinho (recuando um pouquinho também quando a contração cessa, mas é o normal, desde que ele desça um pouco cada vez). E vai assim até o médico dizer que o bebê está “coroando”, que significa que ele está próximo a vagina. Nesta hora é comum a parturiente sentir um ardor na vagina, conhecido como “círculo de fogo”.

Aqui ocorrem os “puxos” que é a vontade de fazer força, respeite seu corpo e ache a posição mais confortável para fazê-la.

Duração? Este estágio pode levar poucos minutos, mas em mamães de primeira viagem pode ser que dure horas. E nesta etapa que pode ser necessária a episiotomia, que é um pequeno corte no períneo, músculo que fica entre a vagina e o ânus, aumentando o espaço para o bebê passar e evitando assim lacerações.

 

C) Estágio onde ocorre a saída da placenta –> aqui ocorre um descolamento da placenta da parede uterina e a consequente saída, através de contrações que não são tão doloridas como as anteriores. A placenta sai juntamente com a bolsa amniótica vazia e o médico deve examiná-la a fim de verificar se saiu íntegra ou se restou algum pedacinho no abdômen.

 

Acredito que era isso… mas sigo nos meus estudos! 😉

Beijinhos

 

 

Primeira consulta com a sage-femme

Na semana passada tive a minha primeira “consulta de verdade” com a sage-femme, uma consulta em que o tema foi A DOR.

As consultas duram em torno de 1 hora e são sobre temas pré-definidos (eu posso optar por ter a consulta sobre esse tema ou simplesmente dizer que não quero, que o assunto não me interessa), para que eu possa me preparar antecipadamente e levar minhas dúvidas neste dia.

* Um detalhezinho: assim como a consulta médica, a consulta com a sage-femme é reembolsada pelo sistema de saúde francês. Bom né? E sendo assim, qual o motivo de não querer ir na consulta e me informar ao máximo sobre assuntos ligados ao nascimento do Pedro?

Importante lembrar que aqui na França não tenho a opção de escolher o parto, de optar pelo tipo natural ou cesárea, sendo este último realizado somente se necessário, se eu não tiver condições de ter um parto natural. E mesmo que seja o caso, da necessidade de uma cesárea, essa só poderá ser verificada na hora do parto (em princípio, pois até o momento tudo anda bem e o Pedro já está posicionado para o parto natural), ou seja, entrarei em trabalho de parto! Sendo assim, os temas são voltados para uma circunstância normal.

 

Inicialmente questionada sobre o meu conhecimento sobre a dor do trabalho de parto e do parto natural em si, e sobre um possível medo, respondi que sim, tenho medo! Apesar de saber que a dor do parto varia de mulher para mulher, e de até conhecer mulheres que relatam que não sentiram praticamente nada no parto normal, sei também que de regra a dor é gigantesca, e confesso: isso me assusta!

O Cristiano, que também foi questionado, relatou que acredita que sou mais forte do que eu acredito que sou, no quesito dor! Que acha que eu subestimo a minha capacidade e a minha força… Muito bom escutar isso, afinal há mais de 13 anos juntos, pode ser que ele me conheça melhor que eu mesma. Pode ser que sim, que ele tenha razão, mas é natural termos medo de algo que não conhecemos, não?

Como era de se esperar, a sage-femme já tinha a informação do número absurdo de cesáreas que é realizado no Brasil e conversamos a respeito. Eu e o Cris acreditamos que além dos argumentos sobre a cesárea comumente falados, como exemplos, o ganho financeiro para um médico e o tempo gasto com o parto normal, há uma questão cultural muito forte. Não podemos dizer que a responsabilidade sobre essa decisão e esses números elevados é somente dos médicos, dos planos de saúde, ou dos hospitais, há muitas mulheres que sequer pensam em fazer um parto normal, ou mesmo sequer querem tentar um parto natural, por medo da dor ou, infelizmente, pela facilidade e conveniência de ter uma hora marcada para ter o seu bebê.

Bem, o fato é que essa cultura brasileira também faz parte dessa brasileira aqui! Cresci rodeada de mulheres que passaram por cesarianas, pelos mais diferentes motivos, e por suas histórias, e posso contar nos dedos das mãos as mulheres que conheço que tiveram parto normal. Cresci vendo filmes e novelas em que ao dar a luz, mulheres se contorciam de dor, mordiam panos (ou as mãos do marido, tadinhos) e tudo era muito difícil, para só então ao final tudo ficar bem.

Essa conversa inicial também foi importante para que a sage-femme pudesse analisar o meu nível de medo da dor e insegurança quanto ao parto natural.

Fomos questionados sobre “o que esperamos desses encontros”, sendo que fui enfática: quero estar confiante, quero acalmar meus medos e minhas inseguranças! Eis que o trabalho já começou a ser feito! 😉

O Cris, disse que como é o primeiro filho, não sabe muito bem o que esperar, mas deixou claro, pela sua disposição e interesse na consulta, que busca poder me ajudar de todas as formas possíveis!

Então a sage-femme passou a falar sobre a dor, relatando que a dor do parto normal é a única dor natural! O que isso quer dizer? É a única dor em que não temos nada nos fazendo mal, não estamos doente, não estamos machucados, etc.

Mas nós sabemos lidar com a dor? Pelo fato de sempre haver um motivo para sentirmos dor (doença, machucado), buscamos normalmente amenizá-la, ou preferencialmente parar esse sofrimento com um remédio ou uma outra forma, não é verdade?

No caso da preparação para o parto natural o que vamos fazer é conhecer como tudo acontece com o nosso corpo, para então poder decidir se vamos ou não optar (sim é uma escolha da gestante) por uma peridural para amenizar ou cessar a dor, em que momento faremos isso, o que essa decisão acarreta, etc.

Assim, a sage-femme passou a explicar como tudo ocorre no corpo da mulher, os hormônios secretados pelo bebê e pela gestante, para que servem e como podemos tirar proveito deles. É impressionante como o corpo humano, no caso o feminino, é sábio e produz tudo o que é necessário para que o parto ocorra da melhor forma possível. Sabia que o corpo de uma parturiente produzia a ocitocina – hormônio do bem-estar – , com o objetivo de estimular as contrações, iniciar o trabalho de parto (esse hormônio, neste momento, é produzido inicialmente pelo bebê) e evitar hemorragias; também tinha o conhecimento da existência da prolactina com o objetivo de produção do leite e também de ativação do instinto materno (essa última parte eu não sabia, lindo né?!), mas confesso que não sabia do efeito analgésico que a endorfina possui, objetivando deixar a mulher “grogue” para poder suportar tudo o que virá pela frente.

Você já viu alguma filmagem de parto natural? Para mim era um tanto estranho ver as mulheres que pareciam estar “fora de si” darem a luz, como podiam? Aqui está a explicação… é a beta-endorfina!

A sage-femme explicou-nos o quando é complicado fazer o parto de pessoas bem informadas, ou melhor instruídas, pois elas desejam estar no controle de tudo, saber de tudo o que está ocorrendo, e isso gera ansiedade, preocupação e estresse para a própria gestante, o que dificulta o parto. Assim, ficou claro que o ideal é desligar do mundo e estar o máximo possível relaxada, sem preocupações… conhecer o que virá pela frente apenas para aceitar o trabalho de parto, as contrações e a dor, passando por cada contração com tranquilidade. Respirar, respirar, respirar!

É possível? Diferentemente do que a maioria das pessoas imagina, o trabalho de parto não é todo ele dolorido. Apesar de poder durar horas e horas (e isso também varia conforme a natureza de cada mulher, mas em média umas 10 horas – 1h para cada centímetro de dilatação), as contrações ocorrem, quando no trabalho de parto chamado ativo, a cada 5 minutos, e com duração de 60 a 90 segundos.

Bem, pensando nestes números, temos que a cada 1 minuto de dores, terei 4 de total ausência de dor! Pensando assim, fica mais fácil aceitar o momento e respirar, buscando a calma e a tranquilidade para mais 1 minutinho, e mais um… um após o outro.

Ok, minha tarefa é: saber que de regra a dor é sim muito forte, mas que ela vai ser suportável e de uma forma possível de aguentar, afinal, caso contrário, como teriam ocorrido os nascimentos antes de surgir a cesárea? Preciso estar segura, confiante e muito calma!

 

Explicado tudo isso, a sage-femme passou a conversar mais diretamente com o Cris, qual o papel do pai neste dia tão especial? Explicou que devido a este “estado” em que eu provavelmente estarei, não devo me preocupar com nada, simplesmente deixar a cabeça vazia, sem estresse, ansiedades ou medos. Assim, caberá a ele a preocupação com todo o restante… papéis necessários para a maternidade, saber responder ao pessoal do hospital onde estão as coisinhas do bebê ou da mamãe, verificar antes de partir ao hospital que está tudo certo, saber como nos deslocaremos ao hospital, etc, etc, etc. Isso tudo, além de dar o apoio necessário a mamãe, que é essencial! 

Saber pelo que estarei passando ajudará o Cris a saber como agir e o que fazer para tentar aliviar um pouco as dores (e sobre isso teremos encontros específicos – massagens, pontos do shiatsu, respiração, apoio moral), e me conhecendo como ele me conhece, poderá até mesmo me ajudar em decisões importantes como o pedido da peridural.

Papel importante o do papai, não?

 

Nossos questionamentos foram, em princípio, muito básicos, pois é o nosso primeiro filho: Qual a melhor hora de ir para o hospital? Qual a hora limite? A partir de que momento a peridural pode ser solicitada? Posso requerer “peridural fraca” (para que a dor seja diminuída, mas que eu possa continuar a sentir o trabalho de parto)?

O que eu não sabia era que uma vez solicitada e realizada a peridural, não há mais nada que possamos fazer em relação a dor e ao trabalho de parto, resta-nos esperar o nascimento. Neste momento, a mãe (e também o pai) normalmente relaxa e consegue dormir um pouco, e o corpo da mulher continua a trabalhar (mais lentamente é bem verdade), com a dilatação ocorrendo pouco a pouco.

Como a anestesia o trabalho de parto retarda, e é por isso que muitas vezes se faz necessária a ocitocina sintética, para acelerar as contrações o a hora do nascimento.

 

Bem, este foi o nosso primeiro encontro, resumidamente! Saí satisfeita e confiante, pronta para pesquisar ainda mais a respeito do trabalho de parto e o parto natural e para realmente deixar meus temores de lado, confiando cada dia mais na minha capacidade de lidar com a dor e, se Deus assim permitir, ter um parto natural incrível!

 

Nesta fase em que estou (há 9 semanas do meu parto) tem sido super importante saber de mulheres que passaram pelo parto natural, escutar seus relatos, afinal, como disse a sage-femme preciso de boas referências para que minha cabeça passe a trabalhar a meu favor!

Assim, queria deixar um super obrigada, muito carinhoso a duas pessoas: minha prima Cibele Cesca e minha amiga Gabriela Hausen, que mesmo sem saber a enorme ajuda que estavam me dando, se dispuseram a conversar/escrever sobre as suas experiências, me deixando um pouco mais confiante!

 

Para terminar, quero deixar aqui um vídeo que mostra o nascimento de um bebê… impossível não se emocionar, pela força da gestante, mas acima de tudo pelo companheirismo e dedicação do marido! Vale a pena assistir!! (fonte youtube)

 

 

 

 

 

 

Conhecendo um pouco sobre o trabalho das doulas e das sage-femmes!

Hoje tive a minha primeira “consulta de verdade” com a sage-femme, ou seja, a primeira consulta em que um assunto específico foi abordado.

 

Mas antes de falar sobre o assunto propriamente dito, cabe esclarecer quem é a sage-femme e qual o seu papel no gestação e no parto.

 

Muitas pessoas me perguntam se seria a doula ou a parteira existente no Brasil. Em parte sim, mas há algumas diferenças…

 

DOULA:

Doula,  significa “acompanhante” ou “mulher que serve”, ou seja, é aquela que acompanha o parto. É também conhecida como Monitora, Assistente ou Acompanhante de Parto. É uma função que vem sendo resgatada aos poucos no Brasil.

Ocorre que antigamente as mulheres davam a luz acompanhadas de outras mulheres mais experientes que já tinham passado por parto(s) e poderiam ajudar a gestante neste momento tão delicado. Com o passar dos tempos, no entanto, o parto tornou-se um assunto médico, onde diferentes profissionais passaram a atuar, cada um com sua função bem definida (obstetra, pediatra, anestesista, enfermeira).

Porém, uma função restou vaga, a da pessoa responsável pelo bem-estar físico e emocional da gestante. Essa lacuna vem sendo preenchida pelas doulas, que surgem para dar um suporte emocional e afetivo à gestante, em um ambiente em que a maioria das pessoas que a rodeiam são desconhecidas, e em um momento em que na grande maioria das vezes a mulher está tomada pela dor, pelo medo do desconhecido e pela ansiedade. Assim, podemos dizer que o grande papel da doula é deixar a mãe segura e tranquila, para que o parto ocorra da melhor maneira possível.

O trabalho de uma doula por ocorrer dentro de um hospital, e neste caso essa profissional não conhece a gestante previamente, mas dá um suporte que os demais profissionais não conseguem dar devido à demanda hospitalar, chama-se doula voluntária ou institucional. Pode ocorrer de uma forma particularizada, onde a profissional é contratada pela gestante, conhecendo-a antes, acompanhando sua gestação e aconselhando/ensinando a respeito do trabalho de parto e  o puerpério (pós-parto).

São orientações a respeito de como passar pelo trabalho de parto de uma maneira mais tranquila, falando sobre massagens, respiração, exercícios, posicionamento, tudo que possa ajudar a gestante a aliviar suas dores e seus medos, além de orientar o companheiro em como ajudar a gestante neste momento tão delicado, sendo útil e dando um suporte para a gestante, participando ativamente do parto. Ainda presta informações a respeito dos tipos de parto, com suas vantagens e desvantagens, para que a opção seja feita de modo consciente, além de preparar a mulher para para os procedimentos médicos propriamente ditos, as intervenções, orientando como ocorrerá no dia do parto, deixando-a mais ciente e tranquila.

A doula também atua nas cesárias, dando apoio, confortando e ajudando a parturiente a relaxar durante a cirurgia. Após o parto é responsável pela assistência em relação a essa fase, orientando quanto a amamentação, cuidados com o bebê, etc.

Assim, podemos dizer que as funções básicas de uma doula são: acompanhar, oferecer um suporte emocional e físico à gestante, acalmar, passar seus conhecimentos, tudo com o objetivo final de ajudar a parturiente e também seu companheiro a passarem por este momento, o nascimento do bebê, da melhor forma possível.

A doula não faz procedimentos médicos nem exames, e nem mesmo cuida do recém-nascido, e por isso, não substitui qualquer profissional da área médica. É importante salientar que muitos médicos ginecologistas/obstetras prestam esse suporte às suas pacientes, fornecendo todo o suporte, seja ele físico ou emocional, necessário para que a gestante e seu companheiro fiquem tranquilos no momento do parto, bem como dando orientações a respeito das dores do trabalho de parto e de métodos para amenizá-las. 

A formação para ser doula ainda é privada, em cursos  que ocorrem timidamente pelo Brasil, tendo sido o primeiro no ano de 2001, na cidade de Campinas. Por serem cursos privados e não obrigatórios, há uma variação de carga horária, sendo de 40h este da cidade de Campinas. Não há uma profissionalização oficial, pois é uma atividade que atua sem oferecer riscos à população.

As doulas de atuação institucional, ou seja, aquelas que trabalham junto aos hospitais, normalmente são ali treinadas.

 

SAGE-FEMME:

Essa profissional (tradução: mulher-sábia), também conhecida como accoucheuse ou maïeuticienne possui basicamente as mesmas funções de uma doula  realizando um acompanhamento à gestante antes, durante e após o nascimento do bebê; porém, esse acompanhamento pode ir um pouco mais além do acima descrito.

A possibilidade de ir um pouco além é devido ao fato da mulher ter a opção de escolher, aqui na França, o profissional que vai fazer o seu pré-natal, dentre eles uma sage-femme, um ginecologista ou um obstetra. No meu caso em que estou sendo acompanhada por um obstetra desde o princípio, a sage-femme acaba por ter uma função praticamente igual a “doula particular”, e ocorre a partir da 30 semana de gestação, mais ou menos. Ou seja, ela entra em cena no final da gestação para aproximadamente 10 sessões onde tratará com a gestante (e com o seu companheiro, se possível) sobre diferentes temas como: a dor, a peridural, a respiração durante o trabalho de parto, exercícios e posicionamentos para aliviar as dores nas costas e as dores do parto, como é o dia do nascimento, os procedimentos médicos do dia do nascimento que são obrigatórios e os que não são, aleitamento, etc. Cada encontro tem um tema pré-definido. Assim, neste caso, ela atua sim como uma doula, sendo o seu papel aconselhar, acalmar, orientar.

Caso a gestante opte por ser acompanhada desde o princípio por uma sage-femme, essa será responsável por realizar o diagnóstico e a declaração da gravidez (sim, aqui você ganha uma declaração que está grávida, para encaminhar a aos organismos públicos como o sistema de saúde e o de assistência a moradia) e todo o procedimento que o gineco e o obstetra também realizam no pré-natal: pedir exames, analisar seus resultados e até mesmo realizar ecografia. Mas é importante frisar que a sage-femme só pode acompanhar a gestante durante toda a gestação se aquela não tiver nenhum antecedente patológico. Desde 2009, a sage-femme pode ainda prescrever a contracepção feminina.

 

Bem, há duas grandes diferenças entre essas profissionais, pelo que pude perceber (da minha vivência até este momento e das minhas leituras):

1) durante o nascimento a sage-femme é a pessoa responsável por todos os procedimentos antecedentes ao parto, sendo ela quem faz o monitoramento da dilatação, o acompanhamento das condições do bebê, quem orienta a gestante buscando o seu conforto e quem chama o anestesista quando a parturiente decidir pela peridural. É responsável também pelo parto natural (sem a necessidade de nenhum acessório – se precisar de fórceps, por exemplo, outro profissional que atua) nas maternidades, sendo que o obstetra só entra em cena na necessidade de uma cesária. Neste dia tão importante, essa profissional possui também a função de assegurar a boa saúde do recém-nascido e analisar os seus reflexos. A doula, ao contrário, não pode realizar o parto, mesmo que normal, nem mesmo se ocupa do bebê logo após o nascimento.

2) no que diz respeito a formação, a da sage-femme é bem extensa, são 5 anos, à nível de graduação. É realizada por uma escola especial ligada à maternidade, sendo a admissão nesta escola feita por classificação. O diploma é emitido pela Faculdade de Medicina, pois o primeiro ano é feito conjuntamente com outros cursos da área da saúde – medicina, farmácia e cirurgia dentária – (nos 4 anos restantes, 1/3 é dedicado á parte teórica e 2/3 à parte prática).  

Após o nascimento, as sages-femmes dão uma espécie de monitoramento para as mamães, por uma semana, orientando sobre os cuidados com o bebê, a amamentação, contracepção hormonal e reeducação uro-ginecológica. 

 

Algumas curiosidades:

* Aqui na França o acompanhamento da sage-femme não é obrigatório, porém muito aconselhado, especialmente no caso de tratar-se da primeira gestação. Esse acompanhamento é pago pelo sistema de saúde.

* Em todo o post me referi às profissões de doula e sage-femme no feminino, simplesmente pelo fato da grande maioria dos profissionais atuantes serem mulheres; porém, é importante dizer que não são profissões exclusivas do sexo feminino, podendo sim serem exercida por homens. À nível de curiosidade, a profissão foi aberta aos homens aqui na França em 1985, e a sua denominação é Accoucheur ou Maïeuticien.